terça-feira, 31 de março de 2015

Oralidade: sob uma perspectiva docente no Ensino Médio
Por Deise G. Hickmann
Durante muito tempo se priorizou nas escolas o desenvolvimento de habilidades como Leitura e Escrita em relação à Língua Portuguesa. Tal hábito fez com que o estímulo à oralidade fosse ficando de lado. Um dos possíveis motivos é a preocupação com as provas externas que, obviamente não avaliam a capacidade de expor o conhecimento através da oralidade.
A escola não é a única culpada nesse aspecto, os jovens têm tido cada vez menos chances de diálogo com os pais, tem ficado mais reclusos em seus quartos, com seus videogames e computadores.
A fala, que foi desenvolvida muito antes da escrita e da leitura, é hoje cada vez menos elaborada, menos planejada e menos valorizada como instrumento de aprendizagem.
Hoje se fala muito em valorizar o conhecimento do aluno, o que ele traz de suas vivências, mas se percebe cada vez mais as dificuldades de se expressar e de converter o que pensa e o que sabe em fala e argumentação.
Peças teatrais, apresentação de slides e explicação de maquetes e cartazes são exemplos de atividades que costumam ser usadas em sala de aula como estratégias para desenvolver a oralidade, no entanto trata-se muitas vezes apenas de cobrança como forma de avaliação, não há uma preparação, um treinamento para o ato que parta do professor.
Com a implantação do Seminário Integrado no Ensino Médio Politécnico e a necessidade de elaborar e apresentar os Projetos, foi preciso preparar os alunos para o trabalho, ensinando questões como: postura, entonação, gesticulação, tom de voz, pausas e ordem frasal.
Nos segundos anos, trabalham-se os textos jornalísticos. No presente ano surgiu um projeto para rádio-escola, diante disso os alunos foram motivados a oralizar os textos, gravando-os e editando-os para serem compartilhados na rádio e, espera-se que mais tarde os alunos devam estar aptos para locutar a rádio em tempo real.
No Ensino Fundamental que tem carga horária de 5 horas/aula de Língua Portuguesa, é possível fazer hora de leitura e num dado momento compartilhar oralmente essa leitura, provocando os alunos a opinarem e defenderem seu ponto de vista e não apenas resumirem o que entenderam.
Nos terceiros anos são trabalhadas algumas estratégias orais em função de entrevistas de emprego, por exemplo. Analisamos a forma de se portar, se vestir e de falar, a variação ideal da linguagem de acordo com a situação, etc.
Alguns aspectos que dificultam a oralidade: falta de segurança, falta de domínio da norma culta, falta de domínio e preparo sobre o assunto, dificuldades de contextualizar e relacionar o tema com a prática/situação e de transformar texto em fala, inabilidade para atrair a atenção através da entonação de voz, desconhecimento de estratégias argumentativas.
A oralidade, sem dúvida, abre mais portas no mercado de trabalho do que a escrita, mas é preciso trabalhar isso, dando a devida importância diante das circunstâncias.




domingo, 29 de março de 2015

Nossos limites e a opinião alheia

Começo postando um texto que já trabalhei em minhas aulas e que retoma alguns aspectos dos quais tratávamos no curso de Redes de Aprendizagem. Espero que gostem...

O que Os Outros vão pensar

(Crônica de Martha Medeiros)



"É admirável o esforço que os meios de comunicação estão fazendo para conscientizar a sociedade sobre a importância de proteger as crianças. Mas, pra ser franca, quando eu era pequena não tinha medo de nenhum bicho-papão, mula-sem-cabeça ou de bruxa malvada. Quem me aterrorizava era outro tipo de monstro. Eles atacavam em bando. Chamavam-se Os Outros.


Nada podia ser mais danoso que Os Outros.Eles atacavam em bando. As crianças acordavam de manhã cedinho já pensando neles. Quer dizer, as crianças não: as mamães. Era com Os Outros que elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos direito. Se não estudássemos, Os Outros nos chamariam de burros. Se não fôssemos amigos de toda a classe, os Outros nos apelidariam de bicho-do-mato. Se não emprestássemos nossos brinquedos, Os Outros nunca mais brincariam conosco. E o pior é que as mães não mantinham a lógica do seu pensamento. "Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos" "Eu lá quero saber dos Outros? Só me interessa você!" Era de pirar a cabeça de qualquer um. Não víamos a hora de crescer para nos vermos livres daquela perseguição.

Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos que os Outros estavam mais fortes do que nunca, ávidos por liquidar com a nossa reputação. "Você vai na festa com esta calça toda furada? O que Os Outros vão dizer?" "Filha minha não viaja sozinha com o namorado, não vou deixar que vire comentário na boca dos Outros".

Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo que Os Outros habitavam o planeta inteiro, estavam de olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas atitudes e ferrar com nossa felicidade.

Hoje eles já não nos assustam tanto. Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo da nossa história. Mas ninguém em sã consciência pode se considerar totalmente indiferente a eles. Os Outros ainda dizem horrores de nós. Ainda têm o poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar. A gente bem que tenta não levá-los a sério, mas sempre que bate uma vontade de entregar os pontos ou de chorar no meio de uma discussão, pensamos: "Não vou dar este gostinho para Os Outros".

Está para existir monstro mais funesto do que aquele que poda nossa liberdade." 
Fonte: Zero Hora/2003